quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Dedicado à Christiane F.

Recentemente li o livro "Christiane F. - 13 anos, drogada e prostituída" e senti um grande aperto no peito. Dois jornalistas contam, no livro, a história de uma garota que, aos 13 anos, entra para o mundo das drogas, se prostitue para conseguir dinheiro e é destituída dos cuidados familiares - não por opção dos parentes, mas pela falta de conhecimento de como lidar com a situação. Durante a leitura, não pude conter minha raiva àqueles que não acolhiam a garota, derramando lágrimas que molhavam as páginas e deixavam nelas minha marca de hipocrisia. Hipocrisia por saber que há, no mundo, milhares de Christianes à espera de serem tratadas ou simplesmente escutadas e nada fazer. Hipocrisia por sentir raiva de seus familiares quando eles, em seu desespero, ora contido, ora extravasado, tentavam - embora de maneira incoerente - afastá-la das drogas. Hipocrisia por ter vícios talvez não tão graves quanto os de Christiane, mas que ao mesmo tempo chafurdam minha vida na lama, e não ter 10% da vontade que essa garota teve para se libertar das drogas.
Enfim, é impossível não se apaixonar por essa garota que, em busca de liberdade, acaba presa em um destino que não fora traçado por ela. Mas, pelas drogas.

Leiam: "Christiane F. - 13 anos, drogada e prostituída" de Kai Herrmann e Horst Rieck.

domingo, 17 de outubro de 2010

Tragédia heróica e "marketeira"

Na virada do dia 12 para o dia 13 de outubro deste ano, o mundo pôde (na verdade, "pode", por causa da nova lei, mas prefiro assim) assistir ao resgate dos 33 mineiros que ficaram presos na mina San José, no Chile, por 69 dias. Acompanhamos o drama pelo qual aqueles homens passaram e choramos quando eles foram retirados da mina. Eles foram intitulados "heróis". Agora eu vos pergunto: por que eles receberam esse título de "heróis"? Eles fizeram o que tinha de ser feito. Sobreviveram, bravamente, aos 69 dias de clausura. Pronto. Heróis mesmo são os engenheiros, técnicos, e operários que trabalharam quase sem descanso para montar a parafernália a ser usada para retirar os mineiros de lá. Eles são heróis! E os jornais, revistas e programas de televisão mal os citaram. Só publicaram, de forma sensacionalista, o "heroísmo" dos pobres mineiros.
Além disso, teve gente - e muita - que se aproveitou dessa tragédia para transformá-la em propaganda política. O presidente chileno, Sebastián Piñera, mal saía de perto da mina quando o resgate começou a ser realizado. Afinal lá estavam milhares de jornalistas mostrando sua "caridade" ao mundo. O presidente boliviano, Evo Moralles, também marcou presença para cumprimentar o mineiro boliviano que ficou enclausurado.
É nojento quando vemos essas pessoas subirem em cima de histórias trágicas para se beneficiar. Parece uma tragicomédia grega. O riso só não é proferido em respeito às incontáveis lágrimas derramadas pelos homens - e mulheres - que sofreram durante todo o resgate. Mas, falando em português claro e de bom tom, que mundo bizarro!

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Por que eu ainda me surpreendo?

Vejam só parte da matéria "Plano de Dilma inclui democracia 'irrestrita'", publicada em "O Estado de São Paulo":

"O programa de governo da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, vai pregar a 'garantia irrestrita de liberdade religiosa, de imprensa e de expressão'. O atestado assinado por Dilma para afastar a polêmica do aborto e as desconfianças em torno do controle social da mídia consta do documento intitulado Os 13 Compromissos Programáticos de Dilma Rousseff para Debate na Sociedade Brasileira, a ser divulgado na semana que vem."

Interessante. Então, a nação brasileira, que conquistou sua "liberdade" em 1985 após duas décadas de ditadura, precisa, ainda hoje, de um candidato a presidente que prometa liberdade religiosa, de imprensa e de expressão? Mas isso já não é o básico de uma sociedade dita democrática? É como se o Maluf começasse a prometer não roubar mais. É trivial.
Acredito que essa promessa da candidata do PT é justamente para fechar os olhos dos eleitores frente às opiniões de seu partido. Como sabemos, o Presidente Lula disse para quem quisesse ouvir que ele derrotará a imprensa nessa eleição, que a imprensa "inventa" coisas e etc. Além disso, a (falta de) opinião de Dilma sobre o aborto levou instituições religiosas a classificarem-na como "anticristã". Chegou ao cúmulo dizerem que ela fecharia as igrejas.

Por isso e por muitas outras coisas que Dilma lançará, na semana que vem, "Os 13 Compromissos Programáticos de Dilma Rousseff para Debate na Sociedade Brasileira", incluindo as tais de liberdade de expressão, de religião e de imprensa. Isso irá assegurar aos brasileiros direitos que nós, desde 1985, já temos. Não é estranho?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Sou a favor do aborto!

Nas eleições presidenciais de 2010 nós, cidadãos, estamos observando um homérico - e ridículo - debate entre Dilma Rousseff e José Serra acerca do aborto. Ambos não apresentaram uma visão concreta em relação à proibição ou à liberação de tal prática e estão sempre a tergiversar. Quando o assunto chega aos ouvidos dos eleitores, a opinião é muito dividida. E, para não perder - ou não deixar de ganhar - votos, os candidatos se mantiveram horrivelmente inseguros e ausentes para o debate. Agora, repentinamente, como a prática abortiva não atinge apenas a área de saúde pública, mas também as religiões, o palhaço de azul se diz "a favor da vida" e a bruxa vermelha varia, de hora em hora, sua opinião - a atual é ser contra - para conquistar votos de católicos e evangélicos. Afinal, queridos candidatos, usar da promessa de se proibir ou legalizar o aborto para conquistar votos é, antes de qualquer coisa, patético e incoerente. O Brasil detem uma população de, aproximadamente, 190 milhões de pessoas e grande maioria sofre ainda com os problemas mais simples de falta de saneamento básico, educação de péssima qualidade e filas exorbitantes em postos de saúde. Discutir o aborto é, pois, a solução para que o Brasil "continue crescendo"?
Creio que não.
Obviamente, essa questão não deve, jamais, ser deixada de lado. Mas usá-la como ponto principal de debates a fim de arrancar votos desesperados é um desrespeito com os eleitores, que querem - e precisam - saber sobre os planos que os candidatos tem para solucionar problemas e melhorar algumas áreas do nosso lindo e estranho Brasil.
Suponho que a melhor solução, no momento, é legalizar o aborto. Mas, refiro-me a outro tipo. Devemos abortar da política brasileira essa prática insignificante de lidar com assuntos polêmicos - e nada cruciais - em debates, a fim de que os candidatos apresentem seus reais planos de como se conduzir uma nação à plenitude EM TODAS AS ÁREAS QUE CONSTITUEM UMA SOCIEDADE.